03/10/06

agradeço esta crónica

No meio de "Floribellas", Morangos", novelas, touradas e congéneres, uma reportagem como "Amor atrás das grades", de Alberto Serra, é, no sombrio e sujo pântano das TV, motivo de notícia, senão de escândalo. Ele está condenado a 22 anos de prisão, ela a 21; ele matou um homem numa rixa, ela o marido, ao descobrir que abusava das filhas. Atrás das grades, a solidão combate-se, ó ironia!, vendo TV. Um dia, ele viu-a em qualquer reportagem de qualquer serviço de notícias. Escreveu-lhe, ela respondeu. Receber uma carta na prisão, diz ele, permite sobreviver. Durante um ano, sobreviveram ambos trocando cartas. Ao fim de um ano, casaram-se. Hoje têm direito a encontrar-se durante três horas em cada mês. Cépticos em relação à felicidade, sonham de novo, quase a medo quando saírem, ela terá 55 anos, ele 62. É uma idade como outra qualquer para recomeçar. Alberto Serra conta a história de Fernando e Preciosa com uma discrição que é quase timidez. Não, não há sordidez, não há mau gosto, não há tosca moral tablóide. Há apenas algo hoje absolutamente improvável em TV: pudor. Daí a sensação de milagre. Daí que, por um momento, nos seja possível acreditar de novo no jornalismo e na televisão. Até ao próximo telejornal. Até à próxima novela.

Manuel António Pina

Jornal de Notícias, Edição de Hoje

5 comentários:

francisco carvalho disse...

Parabéns, Serra.
(mesmo sem ter visto ainda a reportagem, sei bem que são merecidas tais palavras.)

Anónimo disse...

Felicidades Alberto, tens que te sentir muito, muito orgulhoso deste trabalho. Aplausos. Bjs

Anónimo disse...

Mas eu vi,e sao mais que merecidas...muitos pararabéns.
J.A.

Anónimo disse...

São merecidas, são! Também acabei por conseguir ver a reposição na RTPN. Gostei muito. Parabéns.

Ana Maria disse...

não vi a reportagem mas só tenho ouvido falar dela...e bem!
parabéns pelo destaque no jornal e pela originalidade de seres um jornalista sensivel e poeta quase uma "arma" nesta sociedade de cores rosas na frente e no verso de cores negras.
que se usem as "armas" a favor daqueles que mais gritam pela justiça e pela verdade.
desculpa, penso que divaguei um pouco.
se não quiseres publicar este comentário, eu até entendo.
fica bem!