11/11/06

enfarte literário



morrerei. por certo. de enfarte literário. dei-me conta. com o passar dos anos. que a palavra. embutida no rubro lampejar da paixão. é um factor de risco. coágulo letal. que um dia. cravará. fatalmente. uma comporta de aço. no sangue . "não há amor. só provas de amor". dizes-me. sempre que te escrevo. a paisagem que invento. para te ver. rosada e desprevenida. a colher flores azuis. na margem do rio. é afinal. um horizonte desossado. felicidade servida em cápsulas. que os médicos. costumam receitar. a doentes terminais. já não acreditas. eu sei. em quase nada do que escrevo. lembro-me. do bilhete que me deixaste na caixa do correio."em vez de me iludires com essa enxurada de frases feitas. porque não me dás o soro da terra. um colar de areia?" e agora mesmo. que me preparava para te enviar. mais uma acetinada. declaração de amor. apercebo-me. que tu. porque não apareço. porque não ligo. porque não respondo. acharás. ridículas. todas as tentivas. de ressuscitar. antigas vigílias. noites e noites. em que te entregavas. à penosa decifração. procurando. uma palavra que fosse. endereçada só a ti. sinto. meu amor. o corpo da escrita a mirrar. a ordem do médico de família. não podia. ser mais peremptória . "tensões altas. gordura em excesso. no sangue. coração. gangrenado de metáforas. interne-se urgentemente". não adianta. morrerei de enfarte literário.


*



(quadro "biblioteca" de helena vieira da silva)

5 comentários:

Anónimo disse...

Sempre que te ausentas há um vazio infinito e um silêncio de escamas
É como andar de vela acesa á luz
do sol e tactear olhos cegos na
imensidão do dia.Volta

Anónimo disse...

Sinto que teria tanto para dizer sobre as palavras que escreveste. Não, prefiro calar-me. Sentir-me por certo, no fim, ridicula.

Lorena

lel@ disse...

Nunca se está longe de quem se ama.
Mesmo no silencio, as palavras tem vida, acorrentam-nos o sangue. Palavras que guardam um rosto, um amor e uma verdade.
Se nao te escrevo é porque estou a juntar palavras para te ver melhor, para te sentir em cada sílaba...para te mimar.

pr@do disse...

El amor es mas fuerte que la distancia. Besito

Feliz fin de semana.

Pinky disse...

Brilhante, Alberto! Adorei o post!
Enfartes literários não sei se sei tratar... Mas vou-me debruçar sobre o assunto. E se a literatura não servir, não se preocupe, por ser para si, faço eu umas guidelines para tratamento de enfartes literários. Antes que seja tarde. Vá controlando os factores de risco como puder. Assim que tiver boas novas, aviso-o.

(ah, e eu sei escrever "apercebi", foi erro ao teclar!)