12/09/06

antigo 11 de setembro



nesse tempo. o mundo não voava. como hoje. era um tempo. sem tempo. os aviões. moscardos gigantes. hélices a ventilar no céu. motores a roncar a bordo. a aeronave mastigava distâncias. demorado planar. cruzando oceanos. desertos. países. e ninguém ligava aos piratas. do ar. o medo. o terror. não embarcavam. foi há muito tempo. viajar. era uma aventura. sem pressas. não havia escalas. longas horas estendendo o infinito entre nuvens. nenhum regresso atrapalhado . no descolar. no aterrar. lá estava o contingente de lenços brancos nos terraços. o chão do aeroporto. um pátio sem obstáculos. sem policías. sem detectores assanhados. sem o faro cego dos cães. como era bom acampar. nas salas de espera. pic-niques. traziamos a casa. às costas. assoalhadas divididas em malas. e sacos de mão. e ninguém metia o nariz. na bagagem. cada viagem era uma festa. no ar. em terra. o único sobressalto. aconteceu num longínquo setembro. um onze. já rasurado da memória. um casal. sequestrou um avião. ainda o bicharoco. não tinha saído. do hangar. e já os amantes. se engalfinhavam. na cabine do piloto. queriam passar a noite de lua de mel. a vinte mil pés. quando as luzes de bordo apagam. e se está mais próximo do céu. queriam experimentar o prazer. em pleno voo. dizia-se. que não havia embriaguês. igual. mas aquele amor. era tão imperioso. tão. tão. voador. que a aeronave. não levantou voo. tão alto. e corajoso. aquele amor. que parecia uma torre gémea.

*

(fotografia de mariana castro)

5 comentários:

Anónimo disse...

"eu vivia num aborrecimento mudo
quando vieste como um gato
passeando com desdém
a meticulosidade das patas
e ali
despi o teu corpo
de nevoeiro azul
enquanto o relógio prometia
horas mais felizes"

(adaptado do original)

Anónimo disse...

há no teu olhar
algo que tomba
e não se vê
cai
quebra
e não se ouve
uma palavra em chamas
que não se escreve
não se toca
um sonho de infância
por resolver

carolleena disse...

Excelente escolha da música. Combina bem com as palavras.
Absolutamente viciante!

Anónimo disse...

Contigo, nao preciso de saír do hangar, muito menos levantar voo, esse prazer é fascinante. onde tu queiras, onde eu queira. a vinte mil pes ou aos teus pes...

Obgd pelo texto é lindíssimo, a surpresa foi encantadora (desculpa escrever só agora...)

és um Querido. bjs

Anónimo disse...

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Um amor tão tão alto.
Que permanece a distância.
Em um corpo compartido.